Na maioria das pessoas, não. Os grandes estudos mostram que essas canetas não machucam o rim — e, no caso da semaglutida (o remédio do Ozempic), chegou a proteger o rim de quem tem diabetes e doença renal. O perigo real é outro, e é indireto: vômito e diarreia fortes desidratam o corpo, e a desidratação é que pode prejudicar o rim. É por isso que o acompanhamento com exames faz toda a diferença.
A resposta curta
Quase toda semana alguém chega ao meu consultório com a mesma pergunta: “Doutora, ouvi dizer que isso pode prejudicar os rins. É verdade?”
A resposta, com base no que a ciência tem hoje, é tranquilizadora. Nos estudos com milhares de pacientes, quem usou essas medicações teve menos problemas graves de rim, e não mais. A semaglutida recebeu inclusive, na própria bula, a indicação de proteger o rim de pessoas com diabetes tipo 2 e doença renal.
Isso não quer dizer que não exista risco nenhum. Existe um, bem específico: enjoo, vômito e diarreia — efeitos comuns no começo do tratamento — podem desidratar. E um corpo desidratado é um corpo em que o rim sofre. O problema não é o remédio em si. É o remédio usado com pressa, sem orientação e sem ninguém acompanhando.
O que os estudos mostram
Eu sou nefrologista — médica especializada em rins — e acompanho essa literatura de perto. Vou traduzir o essencial.
O estudo mais importante chama-se FLOW. Foi publicado em 2024 numa das revistas médicas mais respeitadas do mundo, o New England Journal of Medicine. Ele acompanhou mais de 3.500 pessoas com diabetes tipo 2 e doença renal crônica — ou seja, gente que já tinha o rim comprometido — durante mais de três anos. Metade usou semaglutida, metade usou placebo.
O resultado: o grupo que usou a medicação teve 24% menos eventos graves de rim (como precisar de diálise ou perder uma parte importante da função renal). A função do rim também caiu mais devagar nessas pessoas. E houve menos mortes por problemas do coração. O estudo foi encerrado antes do previsto porque o benefício já estava claro.
Repare em quem eram esses pacientes: pessoas com o rim já doente — justamente o grupo que a intuição diria para não tratar.
E quem não tem diabetes? Outro estudo grande, chamado SELECT, olhou para pessoas com sobrepeso ou obesidade e problemas do coração, sem diabetes. Também ali, quem usou semaglutida teve menos problemas de rim ao longo do tempo.
E a tirzepatida? Aqui preciso ser honesta: a tirzepatida (o remédio do Mounjaro) ainda não tem um estudo grande feito especificamente para medir o efeito no rim, como o FLOW. O que existe são análises de outros estudos, e elas apontam na mesma direção favorável — menos proteína perdida na urina, sem piora da função renal. É um bom sinal, mas com menos certeza do que temos para a semaglutida.
As sociedades médicas de nefrologia, no Brasil e no mundo, já incorporaram essas medicações nas suas orientações para pacientes com diabetes e doença renal.
Então quando é que essas canetas podem, sim, prejudicar o rim?
Essa é a parte que quase nunca aparece nas propagandas. Eu prescrevo essas medicações — e justamente por isso respeito muito o que elas podem causar quando mal usadas.
Desidratação por vômito e diarreia. É o mecanismo principal. A própria bula avisa: enjoo, vômito e diarreia podem desidratar e, em casos raros, prejudicar o rim. Quem passa dois ou três dias vomitando, sem conseguir beber água e sem avisar ninguém, está em risco de verdade.
Aumentar a dose rápido demais. A dose começa baixa e sobe devagar, de quatro em quatro semanas, no mínimo. Isso existe por um motivo: dar tempo para o corpo se acostumar. Pular etapas para “acelerar o resultado” aumenta muito o enjoo e o vômito — e é o vômito forte que abre a porta para o problema no rim.
Usar por conta própria. Recebo pessoas que usam a caneta há meses, por indicação de uma amiga, e nunca fizeram um exame de sangue.
Misturar com certos remédios. Anti-inflamatórios (para dor), diuréticos (para inchaço e pressão) e alguns remédios de pressão são seguros no dia a dia. Mas, num dia de vômito ou diarreia forte, a combinação deles com desidratação é uma receita conhecida de lesão no rim. Em dias assim, alguns precisam ser pausados — e o paciente só sabe disso se alguém explicou antes.
Rim já fraco, sem acompanhamento. Ter doença renal não é motivo para não usar. É motivo para acompanhar mais de perto, não menos.
Situações que mudam a conversa. Diálise, transplante, história de pancreatite, problemas graves de esvaziamento do estômago e gravidez exigem uma avaliação totalmente individual.
Quem tem doença renal pode usar?
Em muitos casos, sim — e às vezes é exatamente quem mais se beneficia.
A bula da semaglutida diz que não é preciso mudar a dose por causa do rim, mesmo em casos mais avançados. Com a tirzepatida é a mesma coisa. O que muda não é a dose. É a vigilância.
Na prática, penso assim:
- Rim com perda leve a moderada: o uso costuma ser tranquilo, com exames periódicos.
- Rim com perda avançada: a decisão é mais individual. O benefício continua existindo, mas a margem para tolerar um episódio de desidratação é bem menor.
- Diálise ou transplante: a evidência é escassa, e a decisão é caso a caso, sempre em conjunto com o nefrologista que acompanha a pessoa.
O que precisa ser acompanhado, em qualquer situação: os exames que medem a função do rim (creatinina), a presença de proteína na urina, o sódio e o potássio no sangue, e como a pessoa está tolerando o remédio. Nada disso é caro ou difícil de fazer.
Como eu acompanho o rim dos meus pacientes que usam essas medicações
É aqui que a nefrologia entra no meu consultório — e onde eu sou “chata” de propósito.
Antes de começar. Ninguém inicia semaglutida ou tirzepatida comigo sem exames de sangue e urina que mostrem como está o rim: creatinina (que permite calcular quanto o rim filtra), proteína na urina, ureia, sódio e potássio. Também reviso todos os remédios que a pessoa já usa, procurando anti-inflamatórios, diuréticos e remédios de pressão.
Durante o tratamento. Repito os exames do rim em intervalos que dependem do risco de cada pessoa — mais frequentes em quem já tem alteração renal, diabetes ou usa diurético. Cada aumento de dose é uma oportunidade de checar como o corpo está reagindo. A proteína na urina me interessa tanto quanto a creatinina, porque ela se altera antes.
Um detalhe que engana muita gente. Quem emagrece também perde um pouco de músculo — e a creatinina vem do músculo. Por isso, o exame pode “melhorar” no papel sem que o rim tenha melhorado de verdade. Quando isso deixa a leitura em dúvida, uso outro exame, chamado cistatina C, que não depende da massa muscular.
O que eu ajusto. Subo a dose mais devagar em quem sente muito enjoo. Pauso a medicação quando há vômito ou diarreia importantes. E entrego por escrito o que fazer nos dias de mal-estar: como se hidratar, quais remédios pausar e quando me avisar.
O que eu não faço. Não prometo resultado, não uso a mesma dose para todo mundo e não mantenho a medicação sem exame de controle. Se o rim piora, a conduta muda — e às vezes a conduta certa é parar.
Perguntas frequentes
Ozempic faz mal para os rins?
Pelo que a ciência mostra até hoje, não. Nos grandes estudos, a semaglutida reduziu os problemas graves de rim em pessoas com diabetes tipo 2 e doença renal, e a bula traz essa indicação de proteção. O risco aparece quando vômito ou diarreia fortes desidratam a pessoa e ninguém está acompanhando.
Ozempic pode causar insuficiência renal?
De forma indireta e rara, sim. A bula avisa que enjoo, vômito e diarreia podem desidratar e, em casos raros, prejudicar o rim. Não é um efeito tóxico do remédio sobre o rim. O risco aumenta quando a dose sobe rápido demais, quando a pessoa usa diurético ou anti-inflamatório junto, e quando não faz exames de controle.
Quem tem apenas um rim pode tomar Mounjaro?
Na maioria dos casos, pode — desde que o rim seja avaliado antes e acompanhado durante o tratamento. A tirzepatida não precisa de ajuste de dose por causa do rim. Mas quem tem um rim só tem menos margem de segurança se desidratar. A decisão é sempre individual.
Preciso fazer exame de sangue antes de começar?
Sim. Antes de iniciar, peço exames de sangue e urina que mostram como está o rim, além dos exames gerais do metabolismo. Isso define o ponto de partida e pode revelar uma doença renal silenciosa — que não dá sintoma. Sem o exame do começo, não há como saber depois se algo mudou.
Quem faz hemodiálise pode tomar Ozempic?
A experiência com semaglutida em quem faz diálise ainda é pequena, e a bula registra isso. Não é proibido, mas é uma decisão tomada caso a caso, junto com o nefrologista responsável pela diálise, pesando o benefício esperado, o risco de desidratação e o quanto a pessoa tolera o remédio.
Mounjaro faz mal para os rins de quem não tem diabetes?
Não há evidência de que faça. As análises dos estudos de obesidade com tirzepatida mostraram menos proteína na urina e nenhuma piora da função do rim. Mas a evidência para a tirzepatida ainda é menos sólida do que para a semaglutida, porque não existe um estudo grande feito só para o rim. O acompanhamento com exames continua valendo.
Um pequeno glossário
- Semaglutida e tirzepatida: os princípios ativos do Ozempic/Wegovy e do Mounjaro. São o “remédio de verdade” dentro da caneta.
- Análogos de GLP-1: o nome da família dessas medicações. Imitam um hormônio do intestino que controla apetite e açúcar no sangue.
- Creatinina: substância medida no sangue que ajuda a calcular quanto o rim está filtrando.
- Proteína na urina (albuminúria): um dos primeiros sinais de que o rim está sofrendo — aparece antes de qualquer sintoma.
- Doença renal crônica: perda lenta e duradoura da função dos rins, muito ligada a diabetes, pressão alta e obesidade.
Onde eu atendo
Atendo em Botucatu, no Espaço Sincrovida — Rua Azaleia 399, Boulevard Office, 6º andar, sala 62, Chácara Floresta, CEP 18603-550. Recebo também pacientes de Bauru, Avaré, São Manuel, Lençóis Paulista e região. O atendimento é exclusivamente particular. Agendamentos pelo WhatsApp (14) 99604-5532.
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Dra. Carla Romagnoli
CRM-SP 111903 — RQE 29070 (Clínica Médica) — RQE 29071 (Nefrologia)
Médica formada pela Faculdade de Medicina de Botucatu — UNESP (2003). Residências em Clínica Médica e em Nefrologia. Dezesseis anos de medicina hospitalar. Pós-graduação em Medicina Funcional Integrativa e em Medicina da Longevidade (2021–2022). Consultório particular em Botucatu-SP desde 2024, com atuação em medicina da longevidade e no tratamento clínico do peso.
Conteúdo informativo; não substitui consulta médica. Diagnóstico e tratamento dependem de avaliação individual.